Bestigium / Mérida
Aqueduto · 1 camada

Aqueduto de los Milagros

O aqueduto de los Milagros é um dos monumentos romanos mais imponentes da Hispânia, integrado no conjunto arqueológico de Mérida declarado património mundial da UNESCO em 1993. Construído para abastecer de água a colónia romana de Augusta Emerita (a actual Mérida, capital da Lusitânia), conduzia a água da albufeira de Proserpina, a cerca de 5 km a noroeste, até um castellum aquae na rua Calvario, de onde era distribuída pela cidade.

Bestigium
Tipo
Aqueduto
Conservação
De pé
Proteção
Classificado · RI-51-0000112
Classificação
13/12/1912
Coordenadas
38.92225, -6.34840
Fotografias
18
O sítio

O que é e o que resta

A sua cronologia tem sido debatida: a teoria tradicional data-o do século I d.C., possivelmente da época augustana (cerca de 25 a.C.), enquanto estudos por termoluminescência realizados pela Universidade Autónoma de Madrid propõem uma construção não anterior ao século IV d.C., associando-a às reformas urbanísticas de Diocleciano, quando Mérida se tornou capital da Dioecesis Hispaniarum.

O trecho conservado, com cerca de 830 metros, tem 38 pilares de dupla arcada que alcançam os 25 metros de altura ao atravessar o vale do rio Albarregas. Os pilares, de 2,5 × 2,5 m de secção, são de opus mixtum: núcleo de opus caementicium revestido de silhares de granito alternados com fiadas de tijolo vermelho, técnica que dá ao conjunto o seu aspecto bicolor característico. A estrutura inclui também um trecho subterrâneo e uma piscina limaria, tanque de decantação da água.

Classificado desde 1912, o aqueduto continua de pé, ainda que em ruína, com visita livre e iluminação nocturna.

O corte

O que cada época deixou aqui

Lê-se descendo: cada faixa é uma época com construção neste sítio, da mais recente à mais profunda.

25 a.C. – séc. V Nível 1
16 factos
8 fotografias
Romano

Romano

Este sítio tem construção desta época. Em Mérida há 57 outros vestígios construídos na mesma camada.

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Facto

Não se chama «de los Milagros» por nenhum prodígio religioso: o nome vem da admiração que causava aos locais que semelhante mole continuasse de pé século após século, ao ponto de a terem por um milagre.

Turismo de Extremadura
Facto

O nome era literal e contava-se um a um: a cada pilar chamava-se «um milagre». Bernabé Moreno de Vargas já o registou na sua História da cidade de Mérida (1633), acrescentando que o povo atribuía a obra ao imperador Trajano.

Extremadura: caminos de cultura — El acueducto de los Milagros
Facto

António Ponz, na sua Viage de España (1784), deixou a conta feita: trinta e sete pilares de pé, «los Milagros». É o censo mais antigo do monumento que se conserva.

Extremadura: caminos de cultura — El acueducto de los Milagros
Facto

Há falos cinzelados nos silhares. Foram identificados quatro: um duplo — dois pénis erectos unidos — na face sul do oitavo pilar da margem direita do Albarregas, e três simples, na horizontal e com a glande para a direita, nos pilares décimo quinto, décimo sexto e décimo oitavo da margem esquerda.

Extremadura: caminos de cultura — Falos del acueducto de los Milagros
Facto

Não era graça de canteiros: o falo, o fascinus romano, colocava-se também em ruas, pavimentos e obras públicas como amuleto da comunidade, para manter o mau-olhado fora de Emerita Augusta e atrair ao mesmo tempo a prosperidade.

Extremadura: caminos de cultura — Falos del acueducto de los Milagros
Anedota

No século XVIII derrubou-se um «milagre» inteiro para aproveitar as suas pedras na reconstrução da ermida da Santíssima Trindade: não foi o tempo que o deitou abaixo, desmontaram-no para fazer obra nova.

GOING (Colegio de Ingenieros de Caminos) — Acueducto de los Milagros
Facto

Que a água vinha de Proserpina, como repetem todos os guias, está em discussão. Santiago Feijóo, do Consorcio de la Ciudad Monumental, localizou restos do conduto para além da barragem e sustenta que a cota original do muro não chega à do aqueduto: não podem ter funcionado juntos.

Embalse de Proserpina — Wikipedia
Facto

Nessa leitura, o aqueduto foi feito para trazer água limpa das nascentes da zona, e as duas barragens de Mérida seriam muito posteriores — visigodas ou islâmicas —, erguidas quando os condutos romanos já estavam abandonados, para mover moinhos, dar de beber ao gado ou lavar lã.

Celtiberia.net — «La presa de Proserpina no es romana»
Hoje

Em 2019 um estudo apresentado na Universidade Autónoma de Madrid concluiu que o aqueduto não era romano mas visigodo, e a cidade caiu-lhe em cima: a datação assentava na termoluminescência de um único tijolo, que deu o ano 290 com uma margem de erro de ±106 anos.

El Español — «El acueducto de Mérida no es romano»: la polémica que indigna a la ciudad
Facto

Os argumentos contra são de estratigrafia: há um mausoléu do século I encostado ao aqueduto — que portanto já existia — e o canal aparece colmatado nos séculos IV-V, justamente quando o estudo sustentava que estava a ser construído.

eldiario.es — Un estudio basado en un ladrillo «descubre» que el acueducto es visigodo
Facto

Impressiona por fora, mas a água ia por muito pouco espaço: o specus, o canal, media apenas cerca de 56 cm de largura e estava revestido de opus signinum. Vinte e cinco metros de alvenaria para um cano estreito.

GOING (Colegio de Ingenieros de Caminos) — Acueducto de los Milagros
Facto

Atribuiu-se-lhe uma reparação de época visigoda num dos pilares, entre o desarenador e a travessia do Albarregas: alguém continuou a mantê-lo quando o Império já não existia.

GOING (Colegio de Ingenieros de Caminos) — Acueducto de los Milagros
Facto

Os ninhos de cegonha do alto não são leves: um novo pesa entre 50 e 100 kg, com os anos chega aos 250, e o recorde registado é de 500 kg. Sobre uma arcaria romana de dois mil anos, isso é um problema de engenharia.

Extremadura7días — Los Milagros de las cigüeñas
Facto

Por isso, em 1991, ornitólogos de Mérida instalaram cinco ninhos artificiais de varas de vide em locais escolhidos de propósito: sobre os pilares, nunca sobre os arcos de tijolo, que são a parte mais frágil do conduto. Nesse mesmo ano voaram cinco crias.

Extremadura7días — Los Milagros de las cigüeñas
Hoje

A colónia está a diminuir: em 2024 criaram apenas quatro casais, e vários ninhos desapareceram durante trabalhos de manutenção do aqueduto.

Extremadura7días — Los Milagros de las cigüeñas
Facto

Alternar fiadas de granito e de tijolo vermelho não era só estrutural: esse jogo de duas cores tem sido apontado como uma das inspirações da arte califal hispano-muçulmana.

Turismo de Extremadura
Bestigium
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A arcaria completa a atravessar o vale do Albarregas, com a água a seus pés
A arcaria completa a atravessar o vale do Albarregas, com a água a seus pésÁngel M. Felicísimo from Mérida, España · CC BY-SA 2.0
Vista de três quartos do trecho mais alto conservado, com os três níveis de arcos
Vista de três quartos do trecho mais alto conservado, com os três níveis de arcosRafa Esteve · CC BY-SA 4.0
Fundo do corte

Debaixo da camada mais profunda de cada vestígio está o terreno: o que ainda não foi escavado, ou o que não deixou obra. O catálogo só afirma o que está documentado.

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